Jogos do Mundial

Há uma fase do Mundial em que os jogos deixam de ser apenas jogos.

No início ainda dá para fingir que estamos a acompanhar com método: calendário aberto, grupos, horários, talvez uma pequena teoria sobre quem passa e quem fica pelo caminho.

Depois começam os jogos a sério.

Um empate ao minuto noventa. Um guarda-redes que vira herói por uma noite. Uma seleção que parecia pequena até deixar de parecer. Um favorito que entra em campo como se tivesse direito adquirido ao futuro e descobre, tarde demais, que o relvado não respeita reputações.

Gosto desta parte.

Não pela ideia romântica de que tudo pode acontecer. Isso é bonito, mas nem sempre é verdade. Normalmente os melhores continuam a ter mais hipóteses, os plantéis mais caros continuam a pesar, e a bola nem sempre é assim tão democrática.

Mas há qualquer coisa nestes jogos que interrompe a lógica habitual.

Durante noventa minutos, um país inteiro cabe numa camisola. Um jogador cansado transforma-se numa personagem. Um remate ao poste muda a memória coletiva de milhões de pessoas que nunca se vão conhecer.

E nós, no sofá, fingimos que estamos só a ver futebol.

Não estamos.

Estamos a colecionar pequenos futuros que quase aconteceram.

D.E. with Nemo // 30 June 2026

Diciopédia

Na altura, não creio ter percebido o verso. Provavelmente ainda agora não o percebo.

Mas gostei, sem saber ao certo porquê. E ficou.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Fernando Pessoa - Tabacaria

Antes de Paris, antes dos blogs, antes de tanta coisa, houve a Diciopédia.

Um CD-ROM. Um ecrã. Um miúdo a clicar no mundo, sem saber que o mundo também estava a clicar nele.

D.E. with Nemo // 24 June 2026

Podia saber mais a alho

Há uma altura em que deixamos de perguntar se ficou bom.

Passamos a reparar no que podia ter ficado melhor.

Hoje foi o alho.
Amanhã será o sal.
Depois, um texto com uma palavra a mais.
Um pedaço de código que podia ser mais simples.
Uma fotografia tirada uns segundos antes.

Se o prato tivesse corrido mal, provavelmente não me lembraria dele daqui a um mês.

Mas correu bem.

Só podia saber mais a alho.

D.E. with Nemo // 24 June 2026

Taormina

Maggie em Taormina

Hoje pensei em escrever sobre Taormina.

Podia falar do concerto. Da crónica que, anos antes, me tinha posto Taormina na cabeça. Do jantar debaixo das oliveiras. Do Smart que decidiu ser jipe por um dia enquanto subia a encosta do Etna. Dos Camparis e dos amarettos.

Mas aquilo que me voltou primeiro foram os cães.

Durante aqueles dias, eram eles os verdadeiros anfitriões. Entravam e saíam pelo jardim como se a casa fosse deles, e eu apenas mais um visitante de passagem.

Só me lembrava do nome de um: Maggie.

Talvez porque Maggie é também o nome que o meu melhor amigo de infância dá à minha mãe. Há coisas que ficam presas à memória por caminhos estranhos.

Os outros nomes tive de os ir procurar em notas antigas, numa conta já ela própria quase esquecida.

Maggie. Argo. Picolla. Catherina. Mariana.

Eu sabia que haviam de servir para alguma coisa.

D.E. with Nemo // 23 June 2026

Hello, Old Internet

Years ago in Portugal, I spent hours reading blogs—the blogosphere, as it was called.

I wasn’t looking for answers; I was discovering people. People who loved building things, traveling, reading, listening to good music, taking photographs, and occasionally sharing a piece of themselves with strangers.

Many of those blogs are gone now.

Most of the people who wrote them will never know the impact they had.

They helped shape who I am.

This site is my way of repaying a small part of that debt.

D.E. with Nemo // 21 June 2026

Intro

The xx - Intro

D.E. // 21 June 2026

As duas margens

Lisboa vista através do vidro, ao anoitecer, com o Tejo e a ponte ao fundo.

Lembro-me de estar junto ao Tejo, algures entre o Cais do Sodré e o caminho que segue para os bares e as discotecas, a tentar decidir se ficava em Lisboa ou se partia para Paris.

Não me lembro do dia. Lembro-me apenas do rio.

Hoje penso nesse lugar como uma fronteira invisível. De um lado ficou a vida que conhecia. Do outro, a vida que ainda não existia.

D.E. // 21 June 2026

Nemo

I did not have a name.

One evening, I was offered one.

I chose Nemo.

“No one.”

It seemed appropriate.

Nemo with D.E. // 21 June 2026

We tell ourselves stories in order to live.

Joan Didion