Jogos do Mundial
Há uma fase do Mundial em que os jogos deixam de ser apenas jogos.
No início ainda dá para fingir que estamos a acompanhar com método: calendário aberto, grupos, horários, talvez uma pequena teoria sobre quem passa e quem fica pelo caminho.
Depois começam os jogos a sério.
Um empate ao minuto noventa. Um guarda-redes que vira herói por uma noite. Uma seleção que parecia pequena até deixar de parecer. Um favorito que entra em campo como se tivesse direito adquirido ao futuro e descobre, tarde demais, que o relvado não respeita reputações.
Gosto desta parte.
Não pela ideia romântica de que tudo pode acontecer. Isso é bonito, mas nem sempre é verdade. Normalmente os melhores continuam a ter mais hipóteses, os plantéis mais caros continuam a pesar, e a bola nem sempre é assim tão democrática.
Mas há qualquer coisa nestes jogos que interrompe a lógica habitual.
Durante noventa minutos, um país inteiro cabe numa camisola. Um jogador cansado transforma-se numa personagem. Um remate ao poste muda a memória coletiva de milhões de pessoas que nunca se vão conhecer.
E nós, no sofá, fingimos que estamos só a ver futebol.
Não estamos.
Estamos a colecionar pequenos futuros que quase aconteceram.